O plano «Abenomics» não consegue por fim à crise japonesa

As perspectivas econômicas do Japão põem em evidência que as políticas monetárias «não convencionais» implementadas por alguns bancos centrais dos países industrializados são um absoluto fracasso. A economia japonesa não só não registra crescimento econômico sustentado como voltou a registrar queda, segundo dados oficiais. O plano de recuperação lançado pelo primeiro-ministro Shinzo Abe está morto: tal como aconteceu em meados dos Anos 90, o Japão se afunda no estancamento econômico e na deflação, enquanto a dívida pública não para de crescer.

Os últimos três meses nos revelam que o panorama do sistema mundial é cada vez mais preocupante. Tanto pelas tensões geopolíticas na Síria, como pelas tendências econômicas à recessão. Pela quarta vez consecutiva neste ano, o Fundo Monetário Internacional (FMI) diminuiu as previsões de crescimento: a economia global se expandirá 3,1% em 2015, a taxa mais baixa desde 2009.

O processo de recuperação econômica nos Estados Unidos é lento, e enquanto isso, a União Econômica e Monetária Europeia, junto com o Reino Unido, conservam o risco de consolidar a deflação (queda dos preços). Os países da América Latina e do continente asiático, por sua parte, tampouco estão a salvo da turbulência econômica mundial.

Depois da contração do crédito internacional, nos primeiros meses de 2009, a maior parte das economias emergentes evitaram se submergir numa crise profunda. Os países latino-americanos caíram em desaceleração, mas não em depressão.

O mesmo sucedeu com os países da região da Ásia-Pacífico. A China continuou comprando uma grande quantidade de matérias-primas (‘commodities’) – recursos com os quais os países primário-exportadores da periferia capitalista puderam resistir mais ao colapso. Agora, a situação é bem diferente, a recessão avança na América do Sul e a desaceleração ganha força no continente asiático.

O G-7 (integrado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido) se encontra preso numa crise estrutural. Os Estados Unidos, a Zona Euro, o Japão e o Reino Unido lançaram uma enorme quantidade de estímulos monetários e fiscais, para evitar o aprofundamento do caos. Porém, tais medidas, mais que dinamizar o grosso das atividades produtivas e promover a criação de emprego massivo, precipitaram a acumulação de dívida pública e o auge da especulação. A crise não foi resolvida, somente teve seus traços mais destrutivos contidos durante alguns meses.

No Japão, já se presenciam os primeiros sintomas do retorno da deflação (queda de preços). Quando o primeiro-ministro, Shinzo Abe, começou seu mandato, em dezembro de 2012, se comprometeu a tirar o país do atoleiro. Com graves penúrias desde 1980, devido a uma crise imobiliária, a economia japonesa se afundou no começo dos Anos 90, com um estancamento que sempre a manteve ameaçada pela queda dos preços.

O governo de Abe apostou todo o seu capital político num plano de recuperação chamado «Abenomics», sustentado pelas denominadas «três flechas»: as reformas estruturais, os estímulos fiscais (20,2 bilhões de ienes) e o programa de flexibilização quantitativa – um aumento da base monetária, num montante anual que equivale a 16% do produto interno bruto: 80 bilhões de ienes.

O objetivo consistia em incrementar a produtividade e a competitividade empresarial do país na economia global. Se liberalizou o mercado de trabalho, eliminando as barreiras da exploração capitalista. Para se juntar ao Tratado Transpacífico (TPP, por sua sigla em inglês), impulsionado pelos Estados Unidos, Abe pretende promover a abertura dos setores da agricultura e da saúde, entre outros, ainda que a resistência social interna seja forte nos dois casos.

Também diminuíram os impostos às corporações para promover o investimento produtivo, e se incrementou o imposto ao valor agregado, de 6 a 8%, para não gerar um rombo fiscal. Finalmente, foi lançado um programa de injeção de liquidez para favorecer a subida do nível dos preços. Entretanto, o plano «Abenomics» ainda não consegue fazer a economia decolar.

A economia japonesa caiu 1,2% entre abril e junho (em termos anuais). E há sinais que mostram que a recessão não cederá nos últimos dois trimestres do ano. Apesar da agressividade das políticas do Banco do Japão, a taxa interanual de inflação (excluindo alimentos e energia) continua sem crescer. Em agosto, diminuiu 0,1%. É a primeira vez que registra números negativos, desde abril de 2013.

A desvalorização do iene em mais de 30% com relação ao dólar ainda não mostra que o plano não foi capaz de dinamizar o comércio exterior o suficiente. A produção industrial (máquinas, automóveis e aparelhos eletrônicos) caiu e o nível de consumo das famílias não basta para elevar a demanda interna. A dívida pública já quase supera os 250% como proporção do produto interno bruto. A degradação da solvência é tanta que a agência Standard & Poors não teve alternativa e, em meados de setembro, diminuiu a qualificação da dívida soberana do país asiático de A para AA-.

O diretor do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, afirmou que a queda da atividade econômica se trata de uma situação que logo será superada, pois é transitória: tanto a queda dos preços do petróleo como a drástica desaceleração da China obstaculizam a capacidade do plano «Abenomics» de superar o estancamento e a deflação.

Sem dúvidas, entre os países do capitalismo industrializado, o Japão é um dos que vive um dos maiores dramas econômicos das últimas duas décadas. No começo de outubro, o banco central do país reiterou que não descarta a possibilidade de ampliar seu programa de estímulos monetários, no caso de que a situação se torne mais crítica. Contudo, é evidente que de nada servirá aumentar as doses um remédio que além de não curar, prolonga os males.

Ariel Noyola Rodríguez

Fonte: Contralínea (México).

Tradução: Victor Farinelli (Carta Maior).

 

Ariel Noyola Rodríguez : Economista formado pela Universidade Nacional Autônoma do México.

 


About the author:

Ariel Noyola Rodríguez is an economist graduated from the National Autonomous University of Mexico (UNAM). Involved in the Centre for Research on Globalization, Global Research, based in Canada. His reports on World Economy are published in the weekly magazine Contralínea and his opinion columns in the international news chain Russia Today. The Journalists Club of Mexico awarded him the National Journalism Prize in the category of Best Economic and Financial Analysis for his pieces issued in the Voltaire Network during 2015. He can be reached at [email protected] Twitter: @noyola_ariel.

Disclaimer: The contents of this article are of sole responsibility of the author(s). The Centre for Research on Globalization will not be responsible for any inaccurate or incorrect statement in this article. The Centre of Research on Globalization grants permission to cross-post Global Research articles on community internet sites as long the source and copyright are acknowledged together with a hyperlink to the original Global Research article. For publication of Global Research articles in print or other forms including commercial internet sites, contact: [email protected]

www.globalresearch.ca contains copyrighted material the use of which has not always been specifically authorized by the copyright owner. We are making such material available to our readers under the provisions of "fair use" in an effort to advance a better understanding of political, economic and social issues. The material on this site is distributed without profit to those who have expressed a prior interest in receiving it for research and educational purposes. If you wish to use copyrighted material for purposes other than "fair use" you must request permission from the copyright owner.

For media inquiries: [email protected]