A China e a restauração do capitalismo – A maior fábrica com trabalho barato do mundo

Este artigo (editado e actualizado em 2018) foca o sistema capitalista da China sob etiqueta “comunista”.

Os salários são extremamente baixos, a produtividade é alta. Estas são as realidades sociais das mercadorias “Made in China”, comercializadas à escala mundial.

A China é uma economia capitalista avançada integrada no mercado mundial. Os salários para o trabalho não qualificado em fábricas chinesas são tão baixos quanto US$100 por mês, uma pequena fracção do salário mínimo em países ocidentais.

O preço de fábrica de uma mercadoria produzida na China é da ordem de 10% do preço de retalho em países ocidentais. Consequentemente, a maior fatia dos ganhos da economia de trabalho barato da China acumula-se nos distribuidores e retalhistas dos países ocidentais.

Em desenvolvimentos recentes, Trump instruiu sua administração a impor tarifas sobre importações chinesas num valor da ordem dos US$50 mil milhões.

O que Trump não percebe é que o défice comercial com a China contribui para sustentar a economia de retalho dos EUA, contribui também para o crescimento do PIB dos EUA.

Sanções comerciais dirigidas contra a China provocariam imediatamente uma reacção adversa contra os EUA.

A China não está dependente de importações dos EUA. Muito pelo contrário. Os EUA são uma economia orientada pela importação, com fraca base industrial e manufactureira, fortemente dependente de importações da China.

Imagine o que aconteceria se a China, na sequência das ameaças de Washington, decidisse de um dia para o outro restringir significativamente suas exportações de mercadorias “Made in China” para os EUA.

Seria absolutamente devastador, desestabilizando a economia do consumidor, um caos económico e financeiro.

O “Made in China” é a ossatura do comércio a retalho nos EUA o qual inequivocamente sustenta o consumo familiar em virtualmente todas as principais categorias de comércio, desde vestuário, até calçados, hardware, electrónica, brinquedos, joalharia, utensílios domésticos, alimentos, aparelhos de TV, telemóveis, etc.

Importar da China é uma lucrativa operação de muitos milhões de milhões de dólares. É fonte de tremendo lucro e riqueza nos EUA, porque bens de consumo importados da economia de baixos salários da China são muitas vezes vendidos ao nível de retalho a mais de dez vezes o seu preço de fábrica.

A produção não se efectua nos EUA. Os produtores [nos EUA] abandonaram a produção. O défice comercial dos EUA com a China é instrumental para alimentar o lucro extraído da economia do consumidor, o qual repousa em bens de consumo Made in China.

Uma dúzia de camisas produzida na China será vendida a um preço de fábrica FOB a US$36 por dúzia (US$3 por camisa). Uma vez chegadas a lojas em centros comerciais, cada camisa será vendida por US$30 ou mais, aproximadamente dez vezes o seu preço de fábrica. Receitas vastas acumulam-se para os distribuidores grossistas e retalhistas. Os “não produtores” baseados nos EUA colhem os benefícios da produção de mercadorias de baixo custo da China. (Michel Chossudovsky, The Globalization of Poverty and the New World Order, Global Research, 2003).

As recentes ameaças de Trump contra a China seguem aquelas formuladas em 2017 em relação ao comércio da China com a Coreia do Norte, as quais são analisadas na primeira parte deste artigo.

Os decisores políticos chineses estão plenamente conscientes de que a economia dos EUA está fortemente dependente do “Made in China”.

E com um mercado interno de mis de 1,4 mil milhões de pessoas, à parte do mercado global de exportação, estas ameaças veladas do presidente Trump não serão levadas a sério em Beijing.

China: restauração capitalista

Em 1981-82, com base no Centre for Asian Studies (CAS) da Universidade de Hong Kong, iniciei minha investigação do processo de restauração capitalista na China. Assisti a um curso rápido de mandarim na HKU Language School bem como em Formosa. Esta investigação – a qual estendeu-se por um período de mais de quatro anos – incluiu trabalho de campo efectuado em várias regiões da China (1981-83) centrando-se nas reformas económicas e sociais, em análises das defuntas comunas populares e no desenvolvimento da indústria capitalista de propriedade privada incluindo o trabalho barato da economia de exportação.

Comecei por rever a história económica chinesa incluindo estruturas do sistema fabril anteriores a 1949, o desenvolvimento dos tratados portuários estabelecidos na sequência das guerras do ópio (1842) e vim a perceber que o que estava a ser reinstaurado em termos de zonas económicas especiais fora influenciado pela história dos tratados portuários, os quais concediam direitos extra-territoriais à Grã-Bretanha, França, Alemanha, EUA, Rússia e Japão.

Na década de 1980, o consenso entre gente de esquerda era que a China era um país socialista. Debater a restauração do capitalismo na China em círculos de esquerda era um tabu.

A maior parte dos economistas e cientistas sociais “de esquerda” afastaram a minha análise: “O que está a dizer, Michel, é uma impossibilidade, vai contra as leis da história”, disse o economista político do Brasil Theotonio dos Santos (em resposta à minha apresentação no Segundo Congresso de Economistas do Terceiro Mundo, Havana, 26-31 de Abril de 1981).

Prevaleceu uma perspectiva dogmática: o socialismo chinês não podia ser revertido. A Corrente Socialista Principal recusava-se mesmo a reconhecer os factos respeitantes à concentração da terra, da propriedade, ao colapso de programas sociais e à ascensão da desigualdade social.

Towards Capitalist Restoration? Chinese Socialism after Mao.Completei o manuscrito do meu livro intitulado “Towards Capitalist Restoration? Chinese Socialism after Mao” em 1984. Ele foi descontraidamente rejeitado pela Monthly Review Press: “Nós infelizmente não temos mercado para um livro sobre este assunto”.

Se bem que isto fosse uma bofetada vinda do que eu considerava uma importante e poderosa voz socialista, vim a perceber que a MR (Harry Magdoff em particular) ao longo da década de 1980 permaneceu um apoiante firme do regime pós Mao sob o leme de Deng Xiaoping. Anteriormente eu encontrara e estava em contacto tanto com Paul Sweezy como com Harry Magdoff, por quem tinha um alto apreço.

O livro foi mais tarde publicado pela Macmillan, em 1986. Clique aqui para descarregá-lo em PDF (muito lento devido à dimensão do ficheiro).

Dezoito anos mais tarde, a Monthly Review publicou um livro de Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett intitulado “China and Socialism: Market Reforms and Class Struggle” (Monthly Review, 2004), o qual concluía que

“as “reformas de mercado” subverteram fundamentalmente o socialismo chinês… Embora seja uma questão controversa se a economia chinesa ainda pode ser descrita como socialista, não há dúvida quanto à importância para o projecto global do socialismo de interpretar com precisão e avaliar com sobriedade suas perspectivas reais”.

A introdução dos editores, feita por Harry Magdoff e John Bellamy Foster, apesar de reconhecer “a reemergência de características capitalistas” associadas ao crescimento económico rápido tende a contornar a questão mais vasta da restauração capitalista, um processo histórico que tem estado em curso desde o fim da década de 1970:

Para resumir nossa argumentação – uma vez que um país pós revolucionário envereda pelo caminho do desenvolvimento capitalista, especialmente quando tenta atingir crescimento muito rápido – um passo leva a outro até que todas as características danosas e destrutivas do sistema capitalista finalmente reemergem. Ao invés do prometido novo mundo do “socialismo de mercado”, o que distingue a China de hoje é a velocidade com a qual apagou os feitos do passado igualitário e criou desigualdades brutas e destruição humana e ecológica. Do nosso ponto de vista, o presente ensaio de Martin Hart-Landsberg e Paul Burkett merece estudo cuidadoso como um trabalho que remove o mito de que o socialismo chinês sobrevive em meio a algumas das mais desenfreadas práticas capitalistas. Não há estrada de mercado para o socialismo se isso significa por de lado as mais prementes necessidades humanas e a promessa da igualdade humana. (ênfase acrescentada)

Muitos marxistas acreditam que a reemergência de “características capitalistas” na República Popular da China tem as suas raízes na construção socialista pós 1949 ao invés das estruturas semi-coloniais que prevaleciam na China antes de 1949.

Em 1978, Deng Xiaoping avançou uma “Política da Porta Aberta” juntamente com o lançamento das Zonas Económicas Especiais (ZEE) em Shenzhen e Xiamen. Estas reformas constituem a ossatura economia da exportação do trabalho barato da China.

Vale a pena notar, no entanto, que o conceito “Porta Aberta” foi cunhado pela primeira vez pelo secretário de Estado dos EUA John Hay, em 1899, como parte da agenda colonial dos EUA a qual consistia em obrigar a China a abrir a sua porta ao comércio “numa base de igualdade” com as potências coloniais.

A questão do alto crescimento do PIB na China pós Mao é enganosa. A taxa de crescimento durante o período maoista era igualmente significativa, no entanto o seu foco e a “composição social” eram diferentes.

O principal impulso do crescimento do PIB na era pós Mao foi (desde o princípio) a economia de exportação do trabalho barato “Made in China” a qual repousa abissalmente sobre salários baixos e altos níveis de desemprego, sem mencionar o desenvolvimento dinâmico do consumo de luxo no mercado interno (o que Marx chama de Departamento IIb). Além disso, enquanto contribuía para o empobrecimento do povo chinês (particularmente em áreas rurais), uma grande fatia dos lucros deste processo de crescimento capitalista tem sido amplamente transferido através do comércio internacional para os países ocidentais.

Os níveis de desigualdade de rendimento são mais altos do que nos EUA segundo um estudo de 2014 da Universidade de Michigan . A desigualdade social na China está entre as mais altas do mundo.

A desigualdade de rendimento tem estado em ascensão rápida na China e agora ultrapassa a dos EUA por uma margem ampla, dizem investigadores da Universidade de Michigan.

Esta é a descoberta chave do seu estudo baseado em dados de inquérito recém disponível coleccionados por várias universidades chinesas.

“A desigualdade de rendimento na China de hoje está entre as mais altas do mundo, especialmente em comparação com os países com padrões de vida comparáveis ou superiores”, disse o sociólogo da Universidade de Michigan Yu Xie. University of Michigan study .

Apesar de a China desempenhar um papel importante e positivo no xadrez geopolítico, ela não constitui uma alternativa “socialista” viável para o capitalismo ocidental. Em contraste com os EUA, no entanto, a China não tem ambições imperiais.

Reservas ilimitadas de trabalho barato: 287 milhões de trabalhadores migrantes internos

A China actualmente tem, segundo números oficiais, trabalhadores migrantes internos [ 275 milhões em 2015 ; 287 milhões em 2017 ] empregados como trabalho barato na economia de exportação, construção e projectos de infraestrutura bem como na economia de serviços urbana.

Uma força de trabalho formidável, quase da dimensão da população dos EUA (325 milhões em 2017).

Os 287 milhões de trabalhadores migrantes da China também constituem a força condutora por trás do desenvolvimento da infraestrutura, estradas e corredores de transporte, sem mencionar a iniciativa de investimento na “Estrada da Seda” para o comércio euro-asiático.

Estes trabalhadores, em grande medida de áreas rurais e pequenas cidades, constituem mais de um terço da força de trabalho. Eles não têm o direito de morar em áreas urbanas.

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Além disso, desde a abolição das Comunas Populares (1983), em grande medida a terra agrícola tem sido privatizada. Por sua vez, muitas das indústrias rurais em pequena escala do período maoista foram encerradas. O povo nas áreas rurais em grande medida confia nas remessas do emprego migrante nas cidades e “zonas económicas especiais” na manufactura e construção.

O meu livro sobre a Restauração capitalista, o socialismo chinês após Mao pode agora ser descarregado em formato PDF (nota: 232 MB, descarregamento muito lento).

A maior fábrica de trabalho barato do mundo

Este vídeo documentário de 2009 descreve a tendência rumo a um tecido social altamente regulado ao serviço do desenvolvimento da economia industrial de baixo salário (orientada pelo lucro):

 

07/Julho/2018

Ver também

Trump’s Trade War with China: Imagine What Would Happen if China Decided to Impose Economic Sanctions on the USA?

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/…

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/

 


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About the author:

Michel Chossudovsky is an award-winning author, Professor of Economics (emeritus) at the University of Ottawa, Founder and Director of the Centre for Research on Globalization (CRG), Montreal, Editor of Global Research.  He has taught as visiting professor in Western Europe, Southeast Asia, the Pacific and Latin America. He has served as economic adviser to governments of developing countries and has acted as a consultant for several international organizations. He is the author of eleven books including The Globalization of Poverty and The New World Order (2003), America’s “War on Terrorism” (2005), The Global Economic Crisis, The Great Depression of the Twenty-first Century (2009) (Editor), Towards a World War III Scenario: The Dangers of Nuclear War (2011), The Globalization of War, America's Long War against Humanity (2015). He is a contributor to the Encyclopaedia Britannica.  His writings have been published in more than twenty languages. In 2014, he was awarded the Gold Medal for Merit of the Republic of Serbia for his writings on NATO's war of aggression against Yugoslavia. He can be reached at [email protected]

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